Em 4 de julho de 2015, numa mesa chamada “Os Imorais”, em Paraty, a pesquisadora Eliane Robert Moraes encerrou a própria fala lendo um poema em voz alta e pedindo palmas para os noventa anos de Dalton Trevisan. O poema era Cantares de Sulamita.

Quem conhece Trevisan pelos contos secos de Curitiba não espera isso dele. E quem procura BDSM na poesia brasileira raramente é mandado para o autor de O vampiro de Curitiba.

O que é o poema

Cantares de Sulamita é uma releitura erótica do Cântico dos Cânticos, o livro bíblico em que dois amantes se descrevem sem qualquer pudor. Sulamita é a amada do texto original. Trevisan pega a voz dela e a leva para outro lugar: a fala deixa de ser celebração do desejo mútuo e vira pedido de comando.

O poema se organiza como uma sequência de ordens que a própria mulher solicita — que a dispam, que a coloquem em posição, que a tratem sem delicadeza. Uma das linhas resume o tom: “me faça de carneirinha viciosa do bruto pastor”. A imagem pastoral vem inteira da Bíblia; o que Trevisan faz é trocar o registro dela.

Por que isso interessa a quem lê sobre BDSM

Porque o poema descreve, em português e em verso, a estrutura que o BDSM organizou depois em regras: uma pessoa pede, especifica o que quer, entrega o comando e estabelece o limite. A frase “só isso mais nada”, que fecha a primeira sequência, é exatamente o que hoje se chamaria de negociação de cena.

Há uma distinção que o texto de Trevisan sustenta e que vale sublinhar: quem fala no poema é quem pede. A submissão descrita ali é escolhida, detalhada e dirigida pela pessoa que a vive. Não é violência sofrida — é roteiro. Confundir as duas coisas é o erro mais comum de quem escreve sobre o assunto de fora.

Vale dizer também o que o poema não é: não é um manual, não é depoimento e não descreve prática real de ninguém. É literatura, e foi lida por uma pesquisadora de erotismo como parte de uma tradição — a do erotismo brasileiro que, segundo Moraes, quase sempre tem um componente cômico junto com o resto.

Onde ler

O poema está na Antologia da poesia erótica brasileira, organizada por Eliane Robert Moraes e publicada pela Ateliê Editorial em 2015, com 504 páginas. É a coletânea de referência sobre o tema em português e reúne muito mais do que Trevisan — a literatura brasileira é abundante em erotismo desde o século XIX, dos naturalistas em diante, e a antologia é o melhor atalho para quem quiser puxar o fio.

Vale a leitura inteira do poema, e não só dos trechos. Ele é formalmente impecável e constrói com palavras de uso comum um texto que se entende sem nenhuma familiaridade teórica com sadomasoquismo — o que é, em si, uma proeza.

Nota de atualização

Publicado originalmente em dezembro de 2015 e revisto em setembro de 2026. O texto antigo reproduzia dois trechos longos do poema; aqui a citação é a mínima necessária. Confirmamos também a origem do texto — é uma releitura do Cântico dos Cânticos, e não uma criação sem referência — e onde ele foi lido em público. Fonte: Gazeta do Povo.

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