O Brasil está entre os países que mais procuram pornografia com mulheres trans e travestis. É também, há quase duas décadas, o país que mais mata pessoas trans no mundo. Os dois dados convivem, e é nesse contraste que está a pergunta deste texto: o que o desejo tem a ver com o preconceito?

O que as buscas mostram

Um levantamento do Pornhub Insights sobre o público brasileiro do RedTube, citado aqui em 2019, apontava que os brasileiros eram 89% mais propensos que a média mundial a visitar a categoria de vídeos com pessoas trans, e que o Brasil ocupava o nono lugar no ranking de buscas pelo tema. O termo em inglês usado pelos sites para esse conteúdo era o quinto tópico mais procurado no país; “travesti” e “brazilian shemale” estavam entre os trinta mais buscados.

O que um antropólogo viu em Salvador

Nos anos 1990, o antropólogo americano Don Kulick passou cerca de um ano em Salvador convivendo com travestis que trabalhavam na prostituição. O estudo virou o livro Travesti: Sex, Gender and Culture among Brazilian Transgendered Prostitutes (1998), publicado no Brasil pela Fiocruz em 2008 como Travesti: prostituição, sexo, gênero e cultura no Brasil.

Kulick não conseguiu traçar o perfil de um cliente típico. “Essa é uma grande incógnita. Embora acompanhasse os travestis todas as noites, não consegui distinguir um cliente típico”, escreveu. Mas registrou o que os clientes pediam. Num levantamento de 138 programas, 52% queriam penetrar, 19% queriam sexo oral, 9% pagaram para ser penetrados, 18% queriam alternar os papéis e 2% queriam ser masturbados. “Não é insignificante que 27% dos homens nessa amostragem quisessem ser penetrados por travestis. Mas esses homens não são maioria, como os travestis geralmente afirmam.”

Desejo, tabu e adrenalina

Em 2018, a Vice ouviu especialistas sobre como os fetiches funcionam. A neurocientista Débora Amado explicou que atividades vistas como tabu liberam adrenalina e ativam o sistema de recompensa do cérebro, com dopamina, endorfina e ocitocina. A sexóloga e psicóloga Erika Oliveira disse que reprimir desejos por causa de tabus sociais pode levar a disfunções sexuais, e que a maioria dos pacientes que chegavam a ela com esse problema eram homens heterossexuais.

Aplicada ao desejo por mulheres trans, essa leitura ajuda a entender o paradoxo. Aquilo que a sociedade trata como proibido também vira objeto de desejo, e muitas vezes esse desejo é vivido às escondidas.

O desejo e a violência

Segundo o dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) publicado em janeiro de 2026, 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil em 2025, 34% menos que as 122 de 2024. Mesmo com a queda, o país segue no topo do ranking mundial, posição que ocupa há quase 18 anos (Agência Brasil).

Excluídas do mercado formal pelo preconceito, muitas mulheres trans encontram na prostituição a principal forma de sustento. O desejo que as procura é, muitas vezes, o mesmo que as exclui, e nesse encontro a pessoa vira fetiche e objeto.

Respeito

Não há problema nenhum em sentir tesão por mulheres trans. O problema é quando o desejo vem sem respeito. Pessoas trans não são fetiche nem objeto de fantasia: são gente, com sentimentos e desejos próprios.

O trabalho de atrizes trans que gravaram para o grupo está em Atrizes trans do Safada.tv e em Travesti gostosa: conheça as criadoras do TransBrasil.tv. O conteúdo trans do grupo hoje está no Transex.

Nota de atualização

Publicado em junho de 2019 e revisado em setembro de 2026. A estrutura e as fontes da reportagem foram mantidas. Corrigimos a grafia do nome do antropólogo (Kulick) e acrescentamos os dados do livro, o link da matéria da Vice e o dado atual da ANTRA sobre violência contra pessoas trans. Saíram as imagens com nudez, três links que não funcionavam mais e a afirmação, sem fonte, de que os homens que procuram mulheres trans seriam os mesmos que as agridem.