Em 2016 perguntamos a quatro criadoras que trabalhavam com a gente se deixariam os pelos púbicos crescer. Nenhuma das quatro disse que sim de bom grado. Era o oposto da resposta que a gente queria ouvir, e por isso mesmo vale republicar: é o pedaço deste post que continua sendo informação, e não nostalgia.

O que elas responderam

Emme White: “Nossa, nem consigo lembrar a última vez que fiquei peluda! Faz tanto tempo que tenho o costume de raspar tudo que realmente não consigo nem lembrar como eu era com pelos. Realmente prefiro ficar depilada. Sei lá, acho que acostumei, até por ser camgirl, virou parte da minha rotina, tipo escovar os dentes. Para um filme eu deixaria os pelos crescerem, inclusive estou tentando deixar crescer pelo menos um tapetinho. Mas tá difícil.”

Mel Fire: “Eu não deixo pelos crescerem há mais de 10 anos, prefiro depilada porque acho mais higiênico e mais bonito. Já me pediram pra deixar eles crescerem pra um filme mas eu não tenho muitos pelos, então nem adianta.”

Gween Black: “Na vagina só às vezes, mas nunca deixei crescer muito desde a puberdade. Estou sempre depilada ou com landing strip. E não, eu não consigo deixar os pelos crescerem, tenho agonia.”

Mary Luthay: “Há mais de dois anos que não deixo meus pelos crescerem. Prefiro estar depilada, pois me dá maior sensação de higiene. Mas eu deixaria os pelos crescerem para um filme, pois seriam motivos profissionais.”

Duas coisas saltam. A primeira: três das quatro usam a palavra higiene — e, como se vê mais abaixo, essa é justamente a parte que a medicina não sustenta. A segunda: duas topariam mudar por trabalho. O pelo, para quem grava, é figurino.

Duas mulheres num colchão no chão, durante uma aula de massagem

O que a medicina diz, de verdade

A versão original deste post atribuía a uma dermatologista a frase de que tirar todos os pelos deixa os genitais “mais expostos a infecções”. Não localizamos a publicação original dessa citação, e ela não deve circular sem fonte — é o único trecho aqui que dá orientação de saúde. Foi substituída pelo que a literatura médica de fato sustenta.

Ferimento é o risco real e o mais comum

O maior levantamento sobre isso, publicado no JAMA Dermatology em 2017 com 7.570 respondentes nos Estados Unidos, encontrou que 25,6% de quem se depila já se machucou fazendo isso. Dos ferimentos, 61% foram cortes, 23% queimaduras e 12% irritação de pele. Em 1,4% dos casos houve necessidade de atendimento médico.

O risco sobe com a frequência: quem removeu todos os pelos onze vezes ou mais teve cerca do dobro de chance de se ferir. Entre as mulheres do estudo, a cera se mostrou menos lesiva que a lâmina comum.

A Sociedade Brasileira de Dermatologia lista a fricção do barbear entre as causas de foliculite — as espinhas vermelhas, com ou sem pus, que aparecem quando o folículo inflama — e recomenda lubrificar a pele antes de passar a lâmina e manter a região limpa, seca e hidratada depois.

E as infecções sexualmente transmissíveis?

Aqui a evidência não fecha, e quem disser que fecha está exagerando para um dos dois lados.

Um estudo de 2017 na Sexually Transmitted Infections encontrou associação entre depilação íntima e maior prevalência de ISTs. Uma metanálise de 2024 na BMC Women’s Health, reunindo 22 estudos e mais de 73 mil participantes, encontrou associação com gonorreia e clamídia, e nenhuma com herpes genital ou condiloma. Mas um trabalho de 2019 na PLOS One, que em vez de perguntar às participantes fez exame laboratorial em 214 universitárias, não achou associação nenhuma.

Todos esses estudos são transversais: fotografam um momento e não conseguem estabelecer causa. A explicação mais provável para a associação é comportamental — quem se depila com mais frequência também tende a ter mais parceiros. Depilar-se não foi demonstrado como causa de IST, e nenhuma orientação séria de saúde diz isso hoje.

Para que servem os pelos, afinal

Não se sabe. As hipóteses mais repetidas — proteção da pele, redução de atrito, dispersão de feromônios — não têm demonstração. A dos feromônios é a mais frágil de todas, porque os feromônios humanos em si não estão estabelecidos.

A pista mais concreta veio de uma pesquisa de 2023 na Scientific Reports, com 2.409 polonesas: quem praticava remoção total e frequente teve cerca de três vezes mais chance de relatar infecção urinária recorrente. Os próprios autores levantam a hipótese de que os pelos abriguem bactérias protetoras, e listam as limitações do trabalho — amostra de conveniência, dados autorrelatados. Outras pesquisas não confirmaram o achado.

Ou seja: a frase “pelo é proteção natural”, que a versão de 2016 deste post afirmava com segurança, é uma hipótese razoável e mal testada. Não é fato.

De onde vem a imagem de que peludo é coisa dos anos 70

Do cinema e das bancas de revista, principalmente.

A cena mais lembrada do cinema brasileiro sobre o assunto está em Estrela Nua, de 1984, dirigido por José Antonio Garcia e Ícaro Martins. A personagem de Carla Camurati apara os próprios pelos púbicos, enrola em papel de seda e fuma. A crítica da época e a de hoje tratam a cena como o momento que definiu o filme.

A mesma dupla de diretores tinha feito Onda Nova em 1983, com Camurati de novo no elenco, ao lado de Cristina Mutarelli e Vera Zimmermann, e participações de Regina Casé e Caetano Veloso. O filme conta a história de um time de futebol feminino no ano em que a modalidade voltou a ser permitida no Brasil, depois de quatro décadas de proibição. A censura o barrou, e o parecer oficial falava em “apologia à bissexualidade, ao amor livre e ao comportamento sexual irresponsável”.

Onda Nova circulou pouquíssimo na época e só voltou aos cinemas em versão restaurada em março de 2025, pela Cinemateca Brasileira. Ou seja: o filme que a gente cita como retrato solar daquela década foi, na prática, quase invisível durante ela.

As revistas

Cláudia Ohana posou para a Playboy brasileira em 1985, e esse ensaio virou referência quando se fala de pelos naturais na imprensa. Voltou à revista em novembro de 2008.

Só que há um detalhe que este post ignorava, e que hoje não dá para ignorar: em 2025 a própria Ohana desmentiu a imagem. Disse que tinha se depilado no dia — “Eu me raspei aquele dia. Eu aparei a grama” — e que a revista retocou a foto: “Pegaram minha foto, fizeram Photoshop, e botaram uma coisa muito cabeluda lá”. O marco visual de uma geração, segundo a retratada, foi fabricado.

Vera Fischer posou duas vezes para a Playboy: em agosto de 1982 e em janeiro de 2000. A versão anterior deste post citava só a segunda.

Fernanda Young foi capa da Playboy em novembro de 2009. Na apresentação do ensaio pediu que usassem o mínimo de retoque possível, para não perder a textura da pele — só cicatrizes e estrias foram tratadas. É a contrapartida exata do caso Ohana: uma decidiu mostrar o que tinha, na outra decidiram por ela.

Mila Spook

Em junho de 2019 estreou aqui um vídeo com Mila Spook, que era então a criadora brasileira mais associada ao tema e uma das poucas a defender publicamente os próprios pelos contra o argumento da higiene. Ela também foi entrevistada no Pornolândia — a conversa está publicada no site da Xplastic.

Fora do Brasil, os nomes que o post original listava como referência do tema eram Dana DeArmond e Kimberly Kane.

O que sobra disso

Depilar ou não depilar é escolha estética, e as quatro criadoras deixaram isso explícito ao responder. O que não é escolha estética é a informação: não há base para dizer que pelo é sujo, nem para dizer que pelo protege. O que há é uma em cada quatro pessoas se cortando, e um mercado de trinta anos construído sobre uma ideia de higiene que ninguém demonstrou.

Nota de atualização

Publicado originalmente em 15 de dezembro de 2016 e reescrito em setembro de 2026. As respostas das quatro criadoras estão como elas mandaram. O resto foi reapurado: a orientação sobre depilação e saúde passa a vir de literatura médica com fonte, no lugar de uma citação que não conseguimos rastrear. Corrigimos a grafia de Carla Camurati e Vera Fischer, o ano de Estrela Nua e a atribuição da cena do baseado, que é desse filme e não de Onda Nova. Saíram um cupom de 2019 que seguia no ar como se valesse e uma promessa de filmes “em 2017”.

Fontes: Truesdale et al., JAMA Dermatology, 2017 (ferimentos) · Sociedade Brasileira de Dermatologia, verbete Foliculite · Osterberg et al., Sexually Transmitted Infections, 2017 · Luster et al., PLOS One, 2019 · Eltobgy et al., BMC Women’s Health, 2024 · Galbarczyk et al., Scientific Reports, 2023 · Papo de Cinema e Instituto Moreira Salles (Estrela Nua e Onda Nova) · A Terra é Redonda, abril de 2025 (parecer da censura) · Metrópoles e O Liberal, 2025 (declarações de Cláudia Ohana) · Correio Braziliense, 6 de novembro de 2009 (Fernanda Young).

Sobre o Autor

Fita Safada é a assinatura da redação do blog do Safada.tv. Os textos tratam dos filmes do estúdio, de quem trabalha neles e de temas de sexualidade.

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