Durante alguns séculos, o corpo gordo foi o padrão. Não uma exceção tolerada nem um nicho: o padrão mesmo, o que as pinturas mostravam quando queriam mostrar beleza. Hoje ele é uma categoria de site, com sigla própria — BBW — e um público que precisa filtrar para encontrá-lo. Essa inversão é o assunto aqui.

Quando gorda era o padrão

Na pintura renascentista, as mulheres que definiam a medida da beleza tinham corpos que hoje seriam chamados de gordos. Mais perto de nós, Fernando Botero construiu uma obra inteira sobre volume. Entre uma coisa e outra há uma lógica que historiadores da arte repetem com frequência: o padrão de beleza tende a acompanhar o que é escasso. Onde comida é difícil, corpo farto é sinal de fartura. Quando a comida barateia e o tempo livre vira o bem raro, o padrão migra para o corpo que exige academia e dieta.

É uma explicação elegante e amplamente aceita, mas vale tratá-la como leitura histórica, não como lei.

O que a ciência diz de fato — e o que ela não diz

A versão anterior deste post afirmava que “os cientistas dizem” que formas voluptuosas atraem os homens instintivamente, independentemente de convenção social. Isso simplifica demais uma literatura que nunca chegou a essa conclusão.

A pesquisa mais citada nessa linha é a do psicólogo Devendra Singh, dos anos 1990, sobre a razão cintura-quadril. Ela trata de proporção, não de tamanho: a hipótese é que uma cintura mais estreita que o quadril seja lida como sinal de fertilidade, e isso vale tanto para corpos magros quanto para corpos gordos. Nada ali diz que corpo grande atrai mais.

E mesmo essa hipótese é disputada. Estudos transculturais publicados desde então divergem sobre se a preferência é universal, e vários deles encontram o peso corporal — não a proporção — como o fator que mais pesa no julgamento, com preferências que mudam conforme o contexto econômico da população estudada. Ou seja: a favor do corpo gordo, a evidência é histórica e cultural, não biológica.

Feederismo: o que é e onde fica a linha

Feederism é um fetiche em que o ganho de peso — e o ato de alimentar — são o centro do desejo. Há quem se identifique como feeder, quem alimenta, e como feedee, quem é alimentada. O objeto do tesão não é só o corpo farto: é o processo.

Em 2016, perguntamos à atriz Micaela Andrade se ela já tinha vivido um relacionamento desse tipo. A resposta dela, na época:

“Tenho um ‘namoradinho’ que adora mexer na minha barriga, leva balança em nossos encontros para monitorar meu peso, e sempre que me leva para almoçar ele me paga sobremesas, leva chocolates, refrigerantes.”

Perguntada sobre como se sentia naquela relação, disse que sentia “mais orgulho ainda por ser BBW”. É um relato de 2016 e não foi atualizado desde então.

A prática divide quem estuda o assunto. Parte da literatura acadêmica a lê como transgressão consentida, organizada em comunidades online que trocam regras e limites como qualquer outro fetiche. Outra parte pergunta se o feederismo não reencena, com roupa nova, a mesma dinâmica de controle do corpo feminino por um homem — a formulação está no título de um artigo conhecido da área, Feederism: Transgressive Behavior or Same Old Patriarchal Sex?. As duas leituras convivem e nenhuma venceu.

O que dá para dizer com alguma segurança é onde fica a linha. Ela não está no fetiche em si: está em quem decide. Uma relação em que as duas pessoas sabem o que estão fazendo, combinaram os termos e podem sair quando quiserem é uma coisa. Uma relação em que uma pessoa engorda para não perder a outra, ou em que o peso vira condição de afeto, é outra — e nesse caso o fetiche virou controle.

Há também a parte que nenhum fetiche negocia: ganho de peso acelerado e monitorado tem consequências metabólicas reais, e elas não somem porque a prática é consensual. Quem vive isso e sente que perdeu o controle sobre a própria alimentação está lidando com saúde, não com sexo, e acompanhamento profissional é o caminho.

Quem mudou a representação do corpo gordo

Fora do pornô, duas modelos empurraram a discussão para o centro da indústria da moda.

Ashley Graham, nascida em 1987 e descoberta aos 12 anos num shopping em Omaha, no Nebraska, foi a primeira modelo plus size a estampar a capa da edição de moda praia da Sports Illustrated, em 2016, e a primeira a aparecer na capa da Vogue, em 2017.

Ashley Graham
foto retirada do site Celebs First

Tess Holliday, modelo americana nascida no Mississippi, construiu carreira contratada por agência de grande porte num tamanho que a indústria até então nem catalogava, e é uma das vozes mais insistentes do movimento de aceitação corporal.

No pornô

Fora do Brasil, os nomes de referência do BBW não são só performers: são produtoras e diretoras. Courtney Trouble construiu um catálogo inteiro de pornô queer e gordo, dirigindo e distribuindo o próprio trabalho. April Flores fez carreira como atriz e como modelo de fotografia artística, com trabalho publicado fora do circuito adulto. London Andrews veio da modelagem alternativa e ajudou a firmar o corpo gordo no vocabulário visual do fetiche.

London Andrews

As brasileiras

Micaela Andrade é a que tem mais trabalho no nosso catálogo: estrelou Game Over, da Xplastic, Fofoletes e as sessões de fetiche do canal Fetishboxxx.

Raquel Moreno é a estrela de Fofoletes.

Aleksandra Yalova era, em 2016, uma modelo que circulava no Twitter e que acompanhávamos por aqui. Não há registro de trabalho dela no mercado adulto brasileiro desde então.

E há o caso de Priscila Temponi, que nunca trabalhou com pornografia e mesmo assim virou referência do assunto no Brasil. Ela participou do Troca de Família, da Record, na segunda temporada do programa, e a cena em que aparece de biquíni circula na internet desde então. A popularidade daquele clipe diz bastante sobre o tamanho de um público que a televisão brasileira nunca soube que tinha.

Mais vídeos e fotos estão na nossa categoria de gordas gostosas.

Nota de atualização

Publicado originalmente em abril de 2016 e revisto em setembro de 2026. Corrigimos a afirmação sobre a pesquisa de atração e um crédito de filme de 1992 atribuído por engano a Ashley Graham. Saíram da lista pessoas públicas que nunca se apresentaram como referência de corpo gordo. E a seção sobre feederismo foi reescrita: a versão antiga terminava incentivando a prática.

Sobre o Autor

Gordelícias é o canal de filmes com mulheres gordas (BBW) do grupo. Os filmes estão em gordelicias.tv.

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