Em janeiro de 2015, o primeiro episódio da quarta temporada de Girls, da HBO, abriu com a personagem de Allison Williams recebendo sexo oral anal. O episódio se chama “Iowa”. A cena dura pouco, não mostra quase nada e mesmo assim rendeu semanas de discussão na imprensa americana — o que diz mais sobre o desconforto do público com a prática do que sobre a cena em si.

O nome técnico é anilingus. É uma das práticas sexuais mais comuns e menos faladas em voz alta, e quase toda a informação que circula sobre ela vem embrulhada em piada ou em medo. Vale separar as duas coisas.

O que é anilingus

Anilingus é o estímulo do ânus com a boca e a língua — lamber, beijar, pressionar. Pode ser um fim em si mesmo ou uma preliminar para a penetração anal. Em inglês se diz rimming. Em português circulam vários apelidos: lambida no cu, beijo grego, botão de rosa, cunete. Um deles, “beijo negro”, carrega associação racista e não é usado neste texto.

A região responde bem ao estímulo por um motivo simples de anatomia: o ânus é cercado de terminações nervosas e a musculatura do esfíncter relaxa com toque suave e calor. É por isso que o anilingus costuma funcionar antes da penetração — não por lubrificação, mas porque o corpo para de resistir. Nos homens, a proximidade da raiz do pênis acrescenta outra camada de estímulo.

Os riscos reais, sem mito

Este é o ponto em que a versão anterior deste post errava, e vale corrigir de frente: ela sugeria que o principal risco do anilingus fosse a transmissão do HIV. Não é.

Segundo o CDC, a agência de saúde pública dos Estados Unidos, o risco de transmitir ou contrair HIV por sexo oral é de pequeno a nenhum. O que o anilingus transmite com facilidade é outra coisa: hepatite A e B, parasitas intestinais como a giárdia e bactérias como a E. coli. Sífilis e gonorreia também circulam por via oral. É uma lista menos assustadora e mais concreta — e que responde a cuidados concretos.

A barreira recomendada é a barreira de látex, o chamado dental dam. Não é um produto fácil de achar no Brasil, mas dá para improvisar: um preservativo cortado ao comprido vira um retângulo de látex que cumpre a mesma função. A vacina contra hepatite A e B está disponível gratuitamente na rede pública e resolve dois itens da lista de uma vez.

Cinco coisas que ajudam na prática

  1. Comece pelo entorno. Cheirar, beijar as nádegas, passar o dedo. Quem nunca fez costuma pular direto para a língua e travar. O caminho mais curto é o mais lento.
  2. Não tenha pressa de “chegar lá”. Se no primeiro dia o casal só encostar a mão, a sessão foi bem-sucedida. Intimidade anal se constrói em várias vezes, não numa.
  3. Combine antes. É uma prática que muita gente quer receber e tem vergonha de pedir, e outra tanta que topa dar e não topa receber. Falar sobre isso vestido é mais fácil do que descobrir no meio.
  4. Resolva a higiene junto. Um banho a dois antes resolve a parte prática e a maior parte do constrangimento. O corpo tem cheiro, e isso não é um defeito a ser corrigido — mas o receio de estar sujo é o que mais atrapalha quem vai receber.
  5. Use a barreira quando não houver histórico de exames. Com parceria eventual, o látex é o que separa uma prática gostosa de uma hepatite.

Se o interesse for pela penetração, e não pelo sexo oral, o caminho é outro texto: como fazer sexo anal.

Nota de atualização

Publicado originalmente em 2015 e reescrito em setembro de 2026. A correção que mais importa: a versão antiga tratava o HIV como risco desta prática. As fontes de saúde não sustentam isso, e toda a seção de riscos foi refeita a partir da orientação do CDC. O restante do texto foi reorganizado para responder à pergunta antes de qualquer outra coisa.

Fontes

CDC — About STI Risk and Oral Sex. O episódio citado é Girls, 4ª temporada, episódio 1, “Iowa” (HBO, 2015).

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