No Brasil, a bunda tem status de assunto nacional: aparece no samba, no futebol, na publicidade e, claro, no pornô. Mas de onde vem esse gosto? A resposta mistura etimologia, biologia, sociologia e psicanálise, e nenhuma delas explica tudo sozinha.

Uma palavra africana

“Bunda” vem do quimbundo, língua de Angola, em que mbunda significa quadris ou nádegas; a etimologia está no Houaiss e em outros dicionários citados pelo Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. A palavra chegou com os africanos escravizados e ficou mais comum no Brasil do que em Portugal. O Museu da Língua Portuguesa atribui a carga pejorativa que ela ainda carrega ao preconceito europeu com a nudez e com palavras de origem não europeia.

O que a evolução explica, e o que não explica

O biólogo evolucionista Darren Curnoe, da Universidade de New South Wales, na Austrália, lembra que a pelve larga e achatada é uma das marcas que nos separam de outros primatas: é ela que permite andar ereto com estabilidade. Com o aumento do cérebro ao longo da evolução, os quadris femininos também se alargaram, para permitir o parto. Quanto ao motivo de a bunda feminina ter ficado maior, a hipótese mais citada é a de seleção sexual, um sinal associado à fertilidade, mas o próprio Curnoe diz que a questão ainda está em aberto.

A gordura que protege

Nem toda gordura é igual. Uma revisão publicada em 2010 no International Journal of Obesity por pesquisadores da Universidade de Oxford (Manolopoulos, Karpe e Frayn) concluiu que a gordura dos quadris e das coxas está associada a um perfil de colesterol e de glicose mais favorável e a menor risco cardiovascular, ao contrário da gordura abdominal. Ela funciona como um depósito de longo prazo, que protege o organismo do acúmulo de gordura em lugares onde ela faz mal.

A “paixão nacional”, segundo Gilberto Freyre

Em dezembro de 1984, o sociólogo Gilberto Freyre publicou na Playboy brasileira o ensaio “Uma paixão nacional”. Nele, liga o gosto brasileiro pela bunda aos encontros do período colonial, com influências africanas, indígenas e ibéricas, e descreve a variedade de corpos do país como “a mais variada expressão antropológica de uma moderna variedade de formas”.

A ideia de que o brasileiro gosta mais de bunda do que outros povos é antiga, mas difícil de medir. O que se sabe é que o tema está longe de ser só brasileiro: a cultura pop americana construiu ícones inteiros em torno dele.

Gosto comum ou fetiche?

Para Freud, o fetiche acontece quando o interesse sexual se desloca para uma parte do corpo ou um objeto. Por esse critério, o gosto por bunda poderia ser lido como fetiche, embora hoje o termo costume ser reservado ao que é incomum. O filósofo Mikhail Bakhtin chamou essa região de “baixo corporal”, ambígua por reunir fecundidade e excreção; a pesquisadora Claudia Bavagnoli usou o conceito para pensar o Brasil, onde o baixo corporal também aparece na ginga do samba e do futebol.

Bunda e sexo anal

O interesse pela bunda anda junto com o interesse pelo sexo anal, que deixou de ser tabu para muita gente. Um levantamento do CDC, o órgão de saúde pública dos Estados Unidos, com dados de 2011 a 2013, mostrou que 35,9% das mulheres e 42,3% dos homens de 18 a 44 anos já tinham feito sexo anal com um parceiro do sexo oposto. Para quem quer começar, o blog tem um guia com cuidados e dicas.

Todas as bundas

Cena do filme Cross Foda

O gosto não se limita às bundas grandes. Há quem prefira as menores, quem goste de roupas justas de academia (o Safada.tv fez disso um filme, Cross Foda), quem prefira os corpos gordos do pornô BBW (o blog tem um texto sobre isso) e quem se interesse pelas bundas de mulheres trans ou de homens, ainda pouco valorizadas no pornô hétero.

Homem de costas

Onde ver

As atrizes e criadoras mais conhecidas por esse atributo estão reunidas em As maiores bundas do pornô nacional. No catálogo do Safada.tv, há um estúdio dedicado ao tema, o Bundas BR, responsável por Bundas, Câmera, Ação, com Ágatha Ludovino e Xdemonica.

Na literatura, Lourenço Mutarelli fez da obsessão por uma bunda o fio de O Cheiro do Ralo (2002), romance que virou filme em 2006.

Nota de atualização

Publicado em agosto de 2020 e reescrito em setembro de 2026. O texto passou a reunir também o conteúdo de “Curiosidades sobre as bundas grandes”, que agora redireciona para cá: origem da palavra, evolução e saúde. Acrescentamos fontes para esses trechos e para os dados sobre sexo anal (o levantamento do CDC substitui números sem fonte da versão anterior). Retiramos um mapa de buscas por país que não conseguimos localizar, a afirmação de que o glúteo máximo seria o segundo músculo mais forte do corpo, uma passagem sem fonte sobre expressões que viriam de castigos a escravizados, recordes tirados de tabloides, um filme cujo enredo envolvia mãe e filha, a lista de galerias (agora no post sobre as atrizes) e um trecho longo de O Cheiro do Ralo.